Dia Mundial da Consciencialização do Autismo

 

Pediram-me para pensar porque é que para mim é tão especial trabalhar com crianças autistas. É simples e ao mesmo tempo complexo. E porquê?

Primeiro que tudo é preciso sentir um grande à-vontade com estas crianças (rebolar, gritar, cantar e fazer todas estas coisas que se ouvem do lado de fora do gabinete) apenas para tentar captar a atenção destas crianças. Para mim, ser Terapeuta da Fala de um autista, é ser também um bocadinho criança, para tentar compreender da melhor maneira possível o que ela nos quer transmitir. E, acreditem, eles têm tanto para nos ensinar…

Gostava de vos falar do W., talvez por ser uma das crianças com quem mais tenho aprendido a ser Terapeuta da Fala na área da comunicação.

Era um dia normal, daqueles super corridos em que mal temos tempo para respirar. O W. chegou para sua sessão, entrou no gabinete e começámos a divertir-nos. Durante a sessão percebi-me de que o W. estava a querer transmitir-me uma mensagem, pois o seu comportamento tinha mudado (gritos, movimentos repetitivos mais exagerados do que o habitual, acendia e apagava a luz da sala repetidamente…). Eu, no meio de todo o cansaço, não estava a conseguir perceber o que o W. me queria dizer. Algo tão simples como querer ir à casa-de-banho e não ser capaz de verbalizar esse pedido. Quando me apercebi já era tarde…

A partir desse dia, introduzimos os símbolos de “sim”, “não” e “wc” para que o W. conseguisse pedir, sempre que sentisse vontade. As nossas sessões iniciam sempre com uma visita ao WC, em que introduzíamos os símbolos em contexto. Atualmente, o W. já consegue demonstrar esta intenção, ainda que nunca tenha verbalizado a palavra “chichi”, algo que deixa os seus pais preocupados e ansiosos, por ser um grande objetivo deles.

Um dia, recebi uma chamada da mãe do W., que com uma voz muito entusiasmada me disse “Joana, o W. hoje disse “chichi” pela primeira vez!”. Imaginam a alegria que me invadiu no momento desta partilha?

Após tanta insistência e com um trabalho colaborativo com os pais, o W. conseguiu verbalizar uma palavra que para tantas crianças é tão simples.

 

Para estes pais, foi um dos dias mais especiais de sempre, e para mim também, por saber que todo o trabalho realizado acaba por gerar frutos. Ser terapeuta da fala é um bocadinho isto: partilhar estas vitórias (e que grande vitória, W.?!).

E por isso, esta é só uma das razões que me fazem ser completamente apaixonada pelo mundo do autismo!

 
 
Dra. Joana Carpelho – Terapeuta da Fala