DIA DOS AVÓS – 26 DE JULHO 2021

Avó,

Tens a luz do mundo inteiro nas sombras do teu rosto e a soma de todas as nossas histórias nas rugas das tuas mãos.

Avó,

As letras do teu nome poderiam compor a realidade dos caminhos que percorremos até agora e que faremos com as tuas pernas vividas e os teus olhos de muito ver.

Avô,

Encheria o teu sorriso de perguntas sobre quem somos e o que poderemos ser com o que nos deixas.

Avô,

As madeixas de aventura pescadas nos desejos que tens para cada um de nós, e escritas nas cartas invisíveis das conversas sobre ser e saber.

A existência partilhada numa vida na qual coexistem avós e netos é uma bênção para ambos e para todo o sistema familiar e a presença dos avós uma dádiva – decerto estes terão o mesmo entendimento quando pensam nos seus netos.

Na teia do tempo, há uma relação inversamente proporcional na dinâmica avós-netos: o crescimento de uns é acompanhado pelo envelhecimento dos outros, uma poética ligação primavera-outono da vida na qual ocaso e luz são parte íntima de um ciclo contínuo, vigoroso e pulsante. Dir-se-ia que o mesmo acontece na relação pais-filhos, mas parece-me que há mais tranquilidade, serenidade e aceitação neste processo nos avós do que nos pais. Uma paz inerente à sapiência do olhar longitudinal de quem observa sem precisar de intervir, de quem conhece pelo vivido experiencial, de quem já provou o seu valor e os sabores da parentalidade na geração anterior, ao ser pai.

Não raras vezes assistimos ao clichê da frase “os pais educam e os avós estragam” – como se ambas as dimensões não fossem necessárias e importantes, como se os pais, na sua maior rigidez e preocupação – porventura assentes necessidade de fazer logo e sempre bem feito, na responsabilidade de acertar, de evitar o erro -, e os avós, no seu amor despreocupado e quiçá desregrado, não pudessem ser aliados no projeto maior de alimentar a vida da família em desenvolvimento, personificada na pessoa nova que incorpora desejos, sonhos, práticas, receios e expectativas de todos estes, mas, em comum com todos eles, a esperança na continuidade. “Avós são pais duas vezes” – não sei como tal se operacionaliza, mas sei que este se trata de um vínculo parental pautado pelo prazer da relação, pelo afeto e pelo cuidado livres – sem a bitola do dever, a necessidade de repreender. Por isso importa contrabalançar estes olhares: o olhar desperto, curioso, mas apreensivo, com aquele indulgente e gentilmente envolvido pela experiência, ambos necessários ao abraço do crescer.

E este posicionamento diferente face à educação da criança comporta uma noção de complementaridade muitíssimo enriquecedora: a possibilidade do balanceamento face ao que pais e avós podem trazer de diferente ao crescimento do infante. Na verdade, ser neto representa poder ter uma relação mais limpa de interferências relacionais diretas, com menos ruído ou receio, ou seja, poder contar aos seus avós assuntos que, por certo, irão valorizar e ouvir atentamente, mas sem dar o peso da importância e da implicação que os pais, porventura, dão, por não se sentirem tão impactados pelas situações que os netos estão a viver, a recear, a perspetivar. Os avós têm o sabor do tempo, a vista longa e o alcance profundo. Têm tempo, ironicamente com menos prazo, e o tempo dá possibilidades, tolerância, hipóteses, ponderação, experiência.

E a complementaridade dos avós pode também surgir na aparência de uma mãe/um pai completa/o, que sabe um pouco mais, tem mais algumas competências, que tem conhecimentos vividos que as mães e os pais não puderam ainda conhecer e guardar – é como percorrer um caminho seguro sabendo que alguém já por ele andou outrora, e, se pensarmos neste trilho de uma forma transgeracional, percebemos que vimos há muito a ajudar-nos vida após vida a fazer a jornada da nossa família (daquela que é e daquela que será) acrescentando ao conhecido o novo, que ciclicamente transportamos para a próxima geração.

E depois é como uma equipa na qual temos um conjunto suplente, mais se formos afortunados ao ponto de contarmos com a presença de avós de ambos os lados parentais, figuras de suporte, de amor adicional e por vezes de substituição funcional, coadjuvantes no desafio da parentalidade, para que sejamos pais mais sólidos e também para que possamos descansar e pousar, tranquilamente, no colo dos nossos pais, os nossos filhos, sabendo-os num sítio de bem-querer, proteção e confiança.

A linha avós-netos pode bem ser a expressão da continuidade, que liga o antes e o depois, o passado e o futuro, os dois desconhecidos para nós, no presente, mas que são completos e unidos por estas pessoas que, por seu lado, levamos por diante, nas gerações vindouras, para sempre, para enquanto houver nome e memória (“Eu estou contigo todos os dias” – tema escolhido pelo Papa Francisco para a celebração deste ano do dia dos avós).

Avós e netos: a possibilidade da vida em que ambos dão, em doses igualmente generosas, os tesouros que têm – a vitalidade e a curiosidade vs a sabedoria e o tempo, um recurso, recíproco na construção da vida simultânea.

Se há dia de celebrar os avós, é dia de celebrar a idade como uma oferenda, um prémio de resistência, uma conquista sobre a adversidade. Admirar os avós como as pessoas que ensinam, sem saber ou querer, a marcar o tempo da vida, a conviver com o abraço pleno da vida vivida, sereno com a robustez de quem seguiu seguro e grato até esse dia e a indagar sobre a sua falência e finitude; olhar a vida e a perda de forma real, amorosa e cuidada (e com menos medos).

  • Ter avós é ter o cheiro a bolos e as mãos de mel gravados em páginas de livros lidos em conjunto e em passeios por rotas que uniam as projeções, os gostos, as paixões e as partilhas a dois tempos, permeados por outras vidas de intervalo. São as tranças metidas a fios de histórias nos cabelos da memória contínua de quem nos preenche de sonhos e descobertas.
  • Ter avós é sorrir com a fortuna de ter um contador de histórias privativo, as de fantasia e as que nos fazem fantasiar sobre a nossa história e a história da nossa família (as narrativas familiares, os mitos, os heróis, as aventuras, os segredos, as danças, amores e desavenças de que somos).
  • Ter avós é consubstanciar a passagem dos testemunhos régios e vulgares, sérios e estapafúrdios, como quem entrega o cofre de uma dinastia nas mãos verdes e arrojadas da seguinte, o passado feito presente.
  • Ter avós representa a possibilidade de fazer todas as perguntas e crescer bem com as respostas e as dúvidas que ainda nos colocam.
  • Ter avós é poder construir um álbum de fotografias que encha as paredes do nosso afeto, erguer uma casa com os nós das mãos antigas e a força das jovens por elas inspiradas.

É o poder de transportar entre gerações, como um fio de amor, vida, experiência e afetos.

Como proseia Mário Quintana “eu gostaria de acreditar que essa inexplicável beleza dos velhos talvez fosse uma prova da existência da alma”. Nas suas almas de histórias contadas e connosco experimentadas, não sei se existirá consagração maior para este laço, mas tomara abraçá-los sempre e sempre guardá-los dentro, bem forte e seguro, oferecendo-os, com os nossos gestos, aos nossos filhos, na forma de um poema vivido.

 

Feliz dia, avós.

Autora: Ana Veríssimo – Psicóloga Clínica

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