Voz mascarada

 

Com o aparecimento da pandemia mundial provocada pela COVID-19, surgiu a necessidade de nos protegermos a nós próprios e a quem nos rodeia. Uma das medidas de maior proteção é o uso de máscara e com ela surgem implicações no uso da voz. Mas se tenho a máscara na cara, porque é que fico com a voz “mascarada”? O som é a propagação de uma onda mecânica que resulta da vibração das partículas. Se a voz é som e pelo seu caminho de saída encontra uma barreira, então é expectável que sofra alterações. É comum ouvirmos desabafos sobre o quão cansado alguém fica por ter de falar com máscara, ou que surgem falhas de comunicação porque não perceberam o que foi dito, ou ainda porque “tenho de falar mais alto porque se não ninguém me ouve”. Tudo isto é uma realidade!

A produção da voz começa com a respiração e, com o uso da máscara, o padrão de inspiração fica alterado, quanto mais não seja porque surge a perceção de que “entra” menos ar e por isso temos de compensar essa situação. Depois disso, temos a questão da ressonância (que se trata da amplificação da voz) que também fica alterada por existir um tecido a cobrir a boca e o nariz.

Por fim, temos a tal propagação de onda sonora que também está comprometida. Tal situação faz com que a própria pessoa não se oiça da mesma forma, não por uma barreira auditiva, mas por a voz que sai da boca ficar como que abafada e perder algumas características acústicas, que estamos habituados a ouvir quando falamos.

Este conjunto de fatores faz com que respiremos mais superficialmente e façamos mais “força” para falar mais alto, resultando em fadiga vocal. Esta fadiga vocal é mais sentida por quem usa a máscara por períodos mais longos e tem de falar mais.

O que é que pode para fazer para melhorar a situação? Uma resposta é perentória: não tire a máscara, a solução não é essa e se o fizer numa situação em que fala com alguém ficará mais exposto e estará também a expor mais o outro. Quanto a conselhos úteis: beba água frequentemente, pois para além de favorecer a hidratação reequilibra o padrão muscular da laringe; fale mais pausadamente para que possa respirar mais profundamente e conseguir articular melhor as palavras; faça movimentos mais amplos da boca enquanto fala favorecendo a dicção; e o conselho mais importante é que se se sentir cansado ou com irritação da garganta, aproveite todas as pausas possíveis para repousar a voz.

Os problemas vocais interligam-se muitas vezes com maus padrões de uso, mas nem isso, nem o uso de máscara invalidam que, caso sinta alterações na sua voz por um período superior a 15 dias, procure um otorrinolaringologista para que possa realizar a avaliação devida.

 

 
Dra. Marta Coelho – Terapeuta da Fala